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07out
publicado às 11:17

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Artigo: O Brasil na cafeicultura mundial

No final de setembro, participei em Londres, como
representante do Senado Federal brasileiro, da 107ª sessão
do Conselho da Organização Internacional do Café.

Com 77 países membros, responsáveis por 97% da produção
e mais de 80% do consumo mundial do produto, a OIC
sempre foi decisiva na discussão das diretrizes da
cafeicultura mundial.

É, portanto, da maior importância a recondução do Brasil à
direção executiva da organização, com a eleição do
economista Robério Oliveira Silva, profissional de renomada
experiência e qualificação, com uma vida dedicada às causas
da cafeicultura nacional.

O sucesso da candidatura brasileira confirma a liderança de
nosso país no setor. Somos o maior produtor mundial de
café, atendendo a 33% da demanda mundial do produto.
Quanto ao consumo mundial, estamos em segundo lugar,
com projeção de superar o líder mundial em quatro anos.

À frente da OIC, nossa responsabilidade é agora ainda maior.
Criada como braço das Nações Unidas para o café, no início
dos anos 60, a organização deixou de regular os fluxos de
oferta do produto no mercado mundial em 89. A partir daí,
seu futuro tem sido incerto. Especialmente por falta de uma
pauta de trabalho mais objetiva e relevante, capaz de
resgatar o papel estratégico da OIC nos rumos da
cafeicultura mundial.

Para a ampla maioria dos países exportadores, que depende
expressivamente do café para o ingresso de divisas e para a
garantia de renda de milhões de cafeicultores, a estabilidade
do preço do produto em níveis remuneradores deve ser o
eixo da OIC.

Já no entender dos países importadores, a organização deve
não apenas desempenhar papel relevante na sustentabilidade
do produtor de café, como também assegurar o adequado
abastecimento do mercado mundial.

A candidatura brasileira captou as expectativas de produtores
e importadores e assumiu claro compromisso de empreender
nova dinâmica de ações na organização, de forma que ela
possa atuar de forma mais efetiva na implementação do
acordo internacional do café, que vai até 2017.

O Brasil e os demais países membros da OIC também terão
que alinhar políticas públicas internas segundo os temos do
acordo internacional. Na prática, isso passa pelo escoamento
regular de produções anuais de café sem pressões de preço
de curto prazo, pela obtenção de fontes de financiamento e
pela organização de modelos eficientes de gestão.

Nos últimos anos temos acompanhado com certa
preocupação um retrocesso, até mesmo uma paralisia na
gestão brasileira do setor cafeeiro, que gera oito milhões de
oportunidades de trabalho no país.

Enquanto no campo da produção de café o Brasil vem se
destacando quanto à eficiência e produtividade – mérito,
sobretudo, do trabalho de pesquisa, ciência e tecnologia da
Embrapa e das empresas de extensão e assistência técnica
dos estados, além, evidentemente, da capacidade
empreendedora de nossos cafeicultores –, o país está
estagnado quanto à captação de maior valor agregado na
cadeia mundial do café.

Somos ainda um exportador residual de produto processado;
nosso segmento exportador de café solúvel permanece
mergulhado em profunda estagnação.

No campo da gestão da safra, o Brasil abandonou por
completo a formação de estoques reguladores. E abandonou
por absoluta incapacidade decisória, uma vez que tal ação
pode ser empreendida por meio de uma série de modelos
distintos.

O próprio Conselho Deliberativo da Política do Café, instância
legalmente obrigatória para a definição de políticas públicas
do café no Brasil, não vem se reunindo há vários anos.
Diante do compromisso assumido na OIC, é imprescindível
empreender mudanças importantes na nossa política interna
de café. Afinal, a política brasileira e a organização
internacional precisam andar na mesma direção.

Já é mais que hora de o Brasil não apenas manter sua
condição de expressivo produtor agrícola, mas também
evoluir em sua capacitação de comercializar café, com maior
valor agregado.

É esse salto de qualidade que precisamos ter a coragem de
empreender. É esse salto de qualidade que nos permitirá
galgar um patamar mais produtivo na cafeicultura,
contribuindo para que possamos nos firmar como uma
economia mais competitiva no cenário internacional.
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Ricardo Ferraço é senador pelo PMDB/ES
Fonte: Agência Congressso (http://agenciacongresso.com.br/

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